ReciclaMapa: por que apoiar o mapa em OpenStreetMap foi a decisão certa
Manter uma base própria de pontos de coleta condena o projeto a envelhecer. Usar uma base comunitária transfere a manutenção para quem já a faz.

O ReciclaMapa recebeu menção honrosa no SINPETE da UFAL em 2024. Eu fui o responsável pelo desenvolvimento; o trabalho foi apresentado por Júlia Raíssa, Pedro Miguel e Hexley Felipe, do Colégio Santíssima. O crédito da banca é deles, e está certo que seja.
Este texto é sobre a decisão técnica que definiu se o projeto ia sobreviver ao semestre em que foi feito.
O destino padrão de todo mapa de coleta
A pergunta que o ReciclaMapa responde é banal: onde eu descarto isto? Quase nenhuma cidade brasileira responde bem.
O caminho óbvio para resolver é levantar os pontos de coleta, cadastrar em um banco e exibir num mapa. Funciona no dia da apresentação. Seis meses depois um ponto fechou, dois mudaram de endereço e um novo abriu, e a base virou desinformação bem apresentada.
Todo mapa mantido manualmente por uma equipe pequena morre por desatualização. É o resultado padrão, não a exceção.
A alternativa: não ser dono do dado
O ReciclaMapa apoia os pontos de coleta na base do OpenStreetMap, mantida pela comunidade.
A troca é direta:
| Base própria | Base comunitária |
|---|---|
| Controle total do esquema | Esquema definido por convenção externa |
| Cobertura só do que a equipe levantou | Cobertura de quem já mapeou a região |
| Manutenção é responsabilidade da equipe | Manutenção é distribuída |
| Envelhece sozinha | Se atualiza sem intervenção do projeto |
Abre-se mão de controle e ganha-se longevidade. Para um projeto escolar, feito por estudantes que vão se formar e seguir a vida, longevidade vale mais.
Existe um custo real: se ninguém mapeou os pontos de coleta de uma cidade no OSM, o mapa fica vazio ali. A resposta a isso não é abandonar a base, é contribuir com ela, e aí o benefício sai do projeto e vai para todo mundo que usa OSM.
Métrica de impacto sem inventar número
A segunda decisão foi sobre o painel de impacto. É tentador exibir “X toneladas evitadas” com um cálculo frouxo por trás.
O critério adotado foi mais conservador: mostrar o que a ação do usuário representa, sem extrapolar para efeito planetário. Ninguém precisa de mais um contador motivacional inflado. A função do painel é dar retorno visível a um comportamento que normalmente não tem nenhum.
Feito para o bolso, não para a mesa
Reciclagem é decidida em pé, com a sacola na mão, na calçada. O uso primário nunca ia ser desktop.
Isso puxou duas exigências:
- Um toque até a resposta. A pergunta é sempre a mesma; o app não deveria pedir configuração antes de responder.
- Tolerância a rede ruim. O momento de consulta e o momento de boa conexão raramente coincidem.
O que o projeto ensinou
O ReciclaMapa é o mais simples dos projetos que já entreguei, e é o que carrega a lição mais transferível: a decisão que mais afeta a vida útil de um sistema costuma ser sobre de onde vem o dado, não sobre como ele é exibido.
Escolher OSM não deixou o projeto mais bonito nem mais rápido de construir. Deixou-o vivo depois que a equipe original seguiu adiante.
Está em reciclamapa.vercel.app.
Continue lendo
- 6 min
SAML: reconstruindo o futebol competitivo do Roblox do zero
Como e por que estou reescrevendo o padrão MPS com uma camada de rede binária própria, física customizada e um sistema de balanceamento centralizado. - 5 min
A fundação técnica: Git, open source, REST, GraphQL e MySQL
O que sustenta os projetos por baixo da interface, e as regras que adotei para cada camada depois de errar em todas elas. - 3 min
Mundaú Sentinela: dado hidrológico público não é aviso de cheia
Os dados da bacia do Mundaú já existiam e eram abertos. O que faltava era alguém traduzir número de cota em decisão de quem mora na margem.