Mundaú Sentinela: dado hidrológico público não é aviso de cheia
Os dados da bacia do Mundaú já existiam e eram abertos. O que faltava era alguém traduzir número de cota em decisão de quem mora na margem.

Em 2010 o Rio Mundaú chegou à cota de 800 centímetros e destruiu parte de doze municípios em Alagoas e Pernambuco. Os dados que teriam permitido antecipar aquela cheia existiam. Estavam publicados, em formato aberto, nas redes da Agência Nacional de Águas e da APAC.
O problema nunca foi disponibilidade. Foi tradução.
O Mundaú Sentinela recebeu premiação na Semana STEAM do Colégio Rosalvo Félix em 2026, na categoria Ensino Médio. Este texto é sobre a decisão de projeto que sustenta a plataforma inteira: um número bruto de cota não é informação para quem mora na margem.
A distância entre o dado e a decisão
Uma estação da rede ANA publica algo assim: Rio Largo, 7 cm. Para um hidrólogo isso é suficiente. Para uma família que mora a duzentos metros do leito, não significa nada, porque a pergunta dela é outra: eu preciso sair de casa hoje?
Traduzir uma coisa na outra exige três camadas que a plataforma implementa em sequência.
1. Limiar calibrado por estação
Cada ponto de monitoramento tem cotas próprias de atenção, alerta e inundação. Sete centímetros em Rio Largo é normalidade absoluta; a mesma leitura em outro ponto da bacia pode significar coisa diferente. Aplicar um limiar único para toda a bacia seria mais fácil de programar e completamente inútil.
2. Previsão, não só medição
A medição diz onde o rio está. O modelo GloFAS diz para onde ele vai, com até 48 horas de antecedência. Quarenta e oito horas é a diferença entre evacuar com calma e evacuar correndo.
A plataforma consulta as estações e o modelo de hora em hora, e mostra o nível atual, a variação das últimas 72 horas e a projeção lado a lado. As três informações juntas contam uma história; separadas, não contam nenhuma.
3. Contexto histórico
A cheia de 1988 tem tempo de retorno estimado em cem anos. Saber disso muda a leitura de qualquer medição atual. A plataforma mantém o registro de eventos extremos desde 1988, com pico de cota e municípios afetados, para que o número de hoje tenha uma régua.
A escala do problema
Os números da bacia definem o que a plataforma precisa cobrir:
- 9 estações monitoradas na rede ANA/APAC
- 500 km² de área drenada
- 12 municípios em Alagoas e Pernambuco
- ~320 mil pessoas em área de risco, segundo o IBGE 2022
Não é um exercício. É população real, em território mapeado.
Por que abrir para relatos de morador
A decisão mais discutida do projeto foi permitir que moradores enviassem relatos. Sensor não mente, mas também não vê tudo: ele mede o nível em um ponto e ignora o bueiro entupido três ruas adiante.
O risco óbvio é ruído, ou pior, alarme falso em um sistema cujo propósito é alertar sobre risco de vida.
A solução foi não confiar automaticamente em nada. O relato entra com foto e localização, fica em fila, passa por revisão humana e só então aparece no mapa público. É mais lento. É a única versão defensável.
Tendência, não só evento
Além da operação diária, a plataforma exibe a série de precipitação desde 1960 e a projeção até 2050 pelo modelo EC-Earth3. É a camada que responde à pergunta de longo prazo: isto está piorando?
Separar as duas escalas de tempo foi importante. Quem quer saber se sai de casa hoje não deveria esbarrar em um gráfico climático de noventa anos, e quem estuda tendência não deveria precisar interpretar leitura horária.
O que a arquitetura precisou garantir
Três requisitos, nessa ordem de prioridade:
- A página abre em rede ruim. Renderização no servidor e carga mínima de JavaScript. Quem mais precisa da informação costuma ter a pior conexão.
- O dado tem procedência declarada. Toda leitura mostra a fonte: ANA, APAC, CPRM, IBGE, GloFAS ou Open-Meteo. Dado sem origem é boato com boa tipografia.
- Nenhuma informação pessoal é comercializada. Está escrito no rodapé e é cumprido no código.
O limite honesto do projeto
O Mundaú Sentinela não substitui a Defesa Civil, e a plataforma diz isso. Ele é uma camada de leitura pública sobre dados que já são públicos, construída para reduzir o atrito entre a informação existente e a pessoa que precisa dela.
Está no ar em mundau.vercel.app. O código lida com cheia, mas o problema que ele ataca é de interface: quando a informação certa chega ilegível, é como se não tivesse chegado.
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