Educaki: o que aprendi construindo uma plataforma de ENEM que ganhou o InovaEdu
Como a Teoria de Resposta ao Item e a correção por IA viraram um produto funcional, e por que o diagnóstico importa mais que o volume de estudo.

O Educaki nasceu de uma frustração que qualquer estudante de terceiro ano reconhece: você estuda oito horas, fecha o caderno e não faz ideia se aquilo aumentou a sua nota. O tempo passa, o cansaço é real, e o resultado continua invisível até o dia da prova.
A hipótese do projeto foi simples de enunciar e difícil de implementar. Se o estudante souber, a cada questão, exatamente onde está e o que vem a seguir, o mesmo tempo de estudo rende mais. Em 2025 essa hipótese levou o primeiro lugar no Concurso InovaEdu, categoria Produto Inovador, no SINPETE da Universidade Federal de Alagoas.
O problema não é falta de conteúdo
Conteúdo de ENEM é abundante e, em boa parte, gratuito. O que falta é orientação. O estudante médio não tem como saber se deve revisar termoquímica ou funções trigonométricas primeiro, porque não tem uma medida confiável do próprio desempenho.
Sem essa medida, sobra a estratégia de força bruta: estudar tudo, um pouco. É a estratégia mais cara em tempo e a menos eficiente em nota.
Por que Teoria de Resposta ao Item
O ENEM não conta acertos. Ele usa Teoria de Resposta ao Item, um modelo estatístico em que o valor de cada questão depende de três parâmetros: dificuldade, poder de discriminação e probabilidade de acerto ao acaso. Duas pessoas com o mesmo número de acertos podem receber notas bem diferentes, dependendo de quais questões acertaram.
Qualquer simulado que devolve “você acertou 32 de 45” está mentindo por omissão. O estudante recebe um número que não tem relação com a nota que vai sair no resultado oficial.
O Educaki calcula a proficiência estimada pelo mesmo tipo de modelo. Isso muda duas coisas:
- A nota exibida na plataforma é comparável à nota real do exame.
- O padrão de acertos vira diagnóstico. Acertar as difíceis e errar as fáceis é um sinal diferente de acertar as fáceis e errar as difíceis, e o sistema trata cada caso de um jeito.
A trilha que se recalibra
A partir da proficiência estimada, a plataforma monta um roteiro. A parte interessante não é montar: é remontar.
O fluxo do produto tem quatro etapas, e a quarta realimenta a primeira:
| Etapa | O que acontece |
|---|---|
| Diagnóstico | Mede o que o estudante já domina por área |
| Plano | Ordena os conteúdos por ganho esperado de nota |
| Prática | Entrega questões calibradas para o nível atual |
| Evolução | Recalcula a proficiência e reordena o plano |
Uma questão errada não é só um ponto perdido. É informação nova sobre a proficiência, e ela entra no cálculo antes da próxima questão aparecer.
Correção de redação em segundos
A redação é onde o retorno costuma demorar mais. Um professor leva dias para devolver uma correção detalhada, e o estudante já esqueceu o raciocínio que usou ao escrever.
A plataforma corrige por competência, seguindo a mesma matriz de cinco competências do ENEM, e devolve a análise em segundos. O objetivo aqui nunca foi substituir o professor. Foi encurtar o intervalo entre escrever e entender o erro, que é onde o aprendizado de escrita realmente acontece.
O que a mentoria mudou
Depois do prêmio, o projeto entrou no LabMent do SINPETE, sob orientação da professora Francine Santos de Paula, na UFAL. A mentoria mudou menos o código e mais a forma de defender o produto.
A pergunta que mais apareceu foi: como você sabe que funciona? É a pergunta certa. Uma plataforma educacional que não mede o próprio efeito é só uma interface bonita em cima de um banco de questões.
O que eu faria diferente
Três coisas, com honestidade:
- Calibração de itens. Os parâmetros de TRI são tão bons quanto a amostra usada para estimá-los. Com uma base pequena de respostas, a estimativa carrega incerteza que a interface não comunica bem.
- Transparência do modelo. O estudante vê a nota, mas não vê por que ela subiu ou desceu. Uma explicação curta ao lado do número aumentaria a confiança.
- Validação externa. Comparar a projeção da plataforma com a nota real de quem prestou o exame seria o teste definitivo, e é o próximo passo natural.
O que fica
O Educaki continua no ar em educaki.vercel.app. Ele é a prova, para mim, de que dá para pegar um método estatístico pesado, embrulhar em uma interface que qualquer estudante do ensino médio consegue usar, e ainda assim não perder o rigor pelo caminho.
O prêmio foi bom. O que vale mais é a estrutura: um sistema que trata cada resposta como evidência, e não como acerto ou erro.
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